
Há um novo movimento chamando a atenção do mundo corporativo conhecido como Demissão Silenciosa, ou “Quiet Quitting”, no termo em inglês. Nesse texto veremos o seu reflexo nas empresas.
O assunto repercutiu muito após a publicação de um vídeo em um aplicativo que tratava de um funcionário informando que, para não ser demitido, só fazia o que era realmente necessário de suas atividades no trabalho. E muitas pessoas mencionaram compartilhar do mesmo comportamento.
O termo demissão silenciosa pode dar a entender que o colaborador pretende se desligar do emprego ou fazer com que seja demitido, mas não é nada disso.
Nas publicações divulgadas mundo afora pode ter mais de um sentido.
Na verdade, o colaborador procura fazer apenas o que está descrito como sua função, evitando se sobrecarregar de responsabilidades ou outras atividades. Enfim, sem se envolver muito com o trabalho. Ele não se importa em ficar estagnado.
O assunto teve repercussão no mundo todo.
Quais seriam os motivos para a demissão silenciosa?
Vários são os motivos que levam um trabalhador a seguir este comportamento da demissão silenciosa. A maioria realmente está ligada ao excesso ou sobrecarga de responsabilidades, como veremos a seguir.
A facilidade da comunicação atual não permite que as pessoas se desconectem dos assuntos de trabalho quando voltam para casa ou desligam o computador. A qualquer momento o trabalhador pode receber mensagens de trabalho junto com suas mensagens pessoais, o que o mantém “ligado” na empresa.
A necessidade de resolver situações emergenciais frequentes faz da atividade extra uma rotina, ainda mais no trabalho remoto, o que resulta na extensão do horário de trabalho em casa.
O uso de tecnologias e ferramentas para facilitar as tarefas pode induzir a empresa a diminuir uma equipe, mas em determinados momentos pode também sobrecarregar alguém cobrando por mais capacitação e cumprimento de prazos e metas difíceis de atingir.
Salários baixos ou falta de valorização da dedicação praticada pelo colaborador gera insatisfação. Isso o leva a mudar seu comportamento e executar apenas aquilo pelo qual é pago.
O movimento também é um reflexo do retorno ao trabalho presencial após a pandemia: muitos preferiram o trabalho não presencial.
Esses diversos fatores, acumulados ou não, deixaram as pessoas acometidas de desgastes físicos e mentais e elas não sabem como lidar com isso! E pode ser entendido pelo profissional como não ir além de suas funções para poupar esforços para outras esferas da sua vida como saúde, família e buscar o equilíbrio pessoal.
Especialistas em carreira procuram entender este movimento e porque tantos trabalhadores estão se identificando com ele.
Por que o movimento de demissão silenciosa tem crescido tanto?
Em algumas empresas ou funções a sobrecarga de trabalho exigida sobre os profissionais não é novidade. Com o avanço tecnológico, o trabalho e a responsabilidade aumentaram muito, visto que com a qualidade das ferramentas de hoje as empresas podem até contratar menos colaboradores e às vezes, acabar elevando a carga de trabalho de uma equipe.
Esse excesso de trabalho está presente nas mais diversas funções, podendo ser desde um cargo de operação, trabalho administrativo, ou até de gestão.
Como profissionais, é possível que já tenhamos passado por esta experiência de muito trabalho, com a responsabilidade de cumprir prazos e obrigações mesmo quando temos equipes de suporte e boas ferramentas.
De acordo com uma pesquisa do “The Wall Street Journal”, de agosto/2022, especialistas identificaram que em torno de 54% de pessoas da “geração Z” (nascidos após 1989) é a que mais tem apresentado este comportamento da demissão silenciosa, já que esta geração apresenta como necessidade ter uma real conexão com o seu trabalho.
Eles possuem forte preocupação com a responsabilidade e a consequência social de suas atividades por isso, existe o desafio de trabalhar em lugares que não estão de acordo com seus ideais e convicções. Sendo assim, procuram se dedicar mais à vida pessoal e ter equilíbrio entre trabalho, saúde e família.
Com o “Quiet Quitting”, os colaboradores não se desligam, mas também não se interessam em fazer algo a mais, executando o que é estritamente necessário, sem envolvimento ou ajudar em inovações, sem perspectiva de crescimento. O colaborador fica apenas ali, de forma “retida”.
Qual o reflexo desse fenômeno para as organizações?
Conforme dissemos, apesar do nome do movimento ser demissão silenciosa, a intenção do colaborador não é se demitir, e sim, fazer apenas o mínimo possível, não assumindo mais responsabilidades além de sua alçada, nem se dedicando a melhorar ou evoluir na carreira.
Procurar fazer apenas o que foi contratado dentro da sua função não está errado. Contudo, a falta de motivação para o crescimento, falta de interesse em outros assuntos da empresa sim.
Muitos evitam até mesmo interagir com colegas de trabalho no dia a dia, em eventos ou participar de grupos.
Isso pode afetar o colaborador, mas o reflexo da demissão silenciosa na empresa é mais abrangente. Manter um profissional desmotivado e que não pretende evoluir não é motivo para desligá-lo, mas principalmente pode afetar a equipe, tendo como consequência o efeito que outros colegas sigam o mesmo comportamento.
Muitos colaboradores notaram a desvantagem em se empenhar demais no trabalho, por não se sentirem valorizados e que o excesso de trabalho os tem deixado mental ou fisicamente doentes.
O pensamento deles é: “Por que me dedicar tanto assim a empresa, se não sou valorizado da mesma forma?”
Quando o trabalho prejudica a saúde
Que a demanda excessiva de trabalho vem criando mais e mais situações de adoecimento das pessoas não é novidade. O que ocorreu foi uma mudança de paradigma.
A alta cobrança de responsabilidade tem levado inúmeros profissionais a desenvolverem doenças como burnout, crises de ansiedade, depressão entre outras, e até que ponto vale a pena colocarmos a saúde em risco por uma carreira?
Isso foi muito questionado durante o período de pandemia da Covid 19, quando o mundo passou pelo risco coletivo de perder a vida.
Fez todos repensarem a real importância do trabalho em suas vidas e se de fato valeria a pena todo o esforço e empenho que colocaram em suas carreiras, principalmente para aqueles que tiveram a perda de algum ente querido.
A insatisfação com o trabalho e a desvalorização do profissional, levou as pessoas a tirarem o trabalho do centro de suas vidas e buscarem outras formas de realização pessoal, sendo ele apenas uma parte das suas necessidades de equilibrar família, saúde e carreira.
Como os profissionais de RH podem identificar a satisfação do colaborador com o trabalho?
As empresas não estão erradas em querer de seus colaboradores dedicação e envolvimento para enfrentar desafios e evoluírem juntos, contudo, os limites das pessoas precisam ser levados em consideração.
Deve-se sempre avaliar se o que está sendo cobrado é algo possível de realização dentro das condições fornecidas.
O que ocorre é que este limite não é observado e muitas empresas acabam por exigir muito mais do colaborador do que ela fornece em troca, e isso vai de carga horária excessiva, metas difíceis de atingir, além de cobrança por qualificações constantes.
Tem sido cada vez mais difícil para as organizações manterem bons talentos.
A rotatividade e o absenteísmo são muito prejudiciais para as empresas: diminui a produção, eleva os custos com horas extras, desmotiva as equipes, demanda mais processos seletivos e treinamentos.
É importante o investimento no capital humano, não basta apenas oferecer um bom salário, mas também perspectiva de um real crescimento e valorização junto com a empresa.
Os profissionais de RH têm papel fundamental em criar ações para tentar identificar situações de excesso de cobrança de trabalho nos profissionais.
E por consequência, sinalizar quais pontos podem ser ajustados para que as atividades sejam realizadas de forma mais adequada com objetivos realizáveis, juntamente com o alinhamento da supervisão desses profissionais.
Pontos de reflexão para que o RH trabalhe a comunicação com o colaborador:
- Defina prioridades
Saber o que realmente é importante para sua vida é fundamental para termos uma satisfação pessoal e para muitos ter uma carreira não é tão importante e sim, priorizar a família.
Conhecendo o que te deixa feliz lhe fará buscar oportunidades que correspondam aos seus objetivos.
- Planeje seu futuro
Quando vemos em nossa carreira a possibilidade de realização pessoal procuramos executar nossas tarefas com ainda mais dedicação e empenho, portanto vale a pena sempre fazermos uma autoanálise de como estamos nos sentindo com relação ao nosso ofício e se nos identificamos com ele.
Antes de seguir uma direção precisamos saber para onde queremos ir e quais caminhos podem nos ajudar. E não existe nenhum problema em mudar os planos durante esta jornada.
- Defina seus limites
Saber dizer “NÃO” pode ser bastante difícil, principalmente no ambiente de trabalho, e este “não” que deixamos de dizer no momento certo é que vai nos consumindo dia a dia, seja na empresa ou na vida pessoal.
Procure informar ao seu gestor ou ao RH quando uma situação ultrapassou o seu limite ou alguma responsabilidade que não consegue assumir. Isso deixará todos alinhados com seus limites.
- Comunique-se
O “fazer apenas o necessário” pode não resolver a insatisfação que sentimos com relação ao trabalho. Desta forma, procure entender o que gera a sua insatisfação com relação ao ambiente de trabalho e converse com o RH, seu gestor, um amigo.
Como a empresa pode contribuir para evitar a Demissão Silenciosa
A busca pela satisfação do trabalho pode ser bastante relativa já que se trata de algo individual e fica difícil para uma organização controlar isso.
Portanto, o que a empresa pode fazer é criar um ambiente equilibrado, promover ações que possam beneficiar seus funcionários, e criar programa de valorização ou revisão salarial de acordo com os papeis contratados, engajando os trabalhadores dentro dos processos de melhoria e evolução da empresa.
A liderança tem um papel muito importante e precisa ser desenvolvida no aspecto de percepção desse tipo de problema para passar confiança a seus liderados.
- Oportunidade de desenvolvimento
Da mesma forma que as empresas buscam crescer, assim são as pessoas, contudo elas têm limites entre suas vidas profissionais e pessoas.
Identificar e investir nos talentos das empresas pode gerar motivação e engajamento entre os colaboradores que veem na empresa uma forma de alcançar seus objetivos, sentirem-se mais valorizados pelo seu potencial. Este incentivo pode ser um treinamento, custear uma formação ou uma premiação.
- Reconhecimento
A falta de reconhecimento é um dos fatores que mais leva os colaboradores a pedirem demissão. Todos nós gostamos de saber que estamos fazendo um bom trabalho quando damos o nosso melhor pela empresa. A falta desse reconhecimento pode gerar um grande descontentamento.
- Cultura organizacional
Para a retenção de talentos as empresas precisam oferecer mais do que apenas um bom salário. A questão monetária não deixou de ser relevante, mas agora não é o principal na hora de decidir permanecer no emprego.
O que os profissionais têm buscado é o conjunto que a empresa pode oferecer: salário, reconhecimento, oportunidade e respeito.
Profissionais de Recursos Humanos são os mais indicados para identificar e gerar estratégias para que as empresas e seus colaboradores possam atingir o equilíbrio e a satisfação profissional e vida pessoal.
Conclusão
O excesso de responsabilidades nem sempre atreladas a um retorno, a desmotivação pela profissão, falta de investimento no capital humano e a competitividade do mercado levou muitos profissionais a uma situação de doenças físicas ou emocionais e a insatisfação com o trabalho.
O movimento “demissão silenciosa” nada mais é que um reflexo desse desgaste físico e emocional que a falta de limites pode causar, sem contar a sensação de estar fazendo o seu melhor e não ser reconhecido.
Essas doenças não são de hoje, mas como houve uma mudança de paradigma e as carreiras não são mais o foco das pessoas elas conseguem assumir que o excesso de dedicação ao trabalho faz mal e que não é mais tão vantajoso.
Entendido isso, as organizações precisam buscar formas para valorizar seus talentos, já que o engajamento e perspectiva de crescimento é o que movimenta as empresas, sendo seus colaboradores o coração de seus negócios e sua vontade de crescer o que o movimenta.
Veja outros assuntos relacionados:



